sábado, 29 de abril de 2017

Underground


Escondem um homem atrás de uma câmara de videovigilância,
o rosto anónimo multiplica-se, exponência milhares de milhões
não existe fisionomia, apenas gestos e o delito ordinário;
não procuram ladrões nem assassinos - só daqueles que remam
contra a maré - do tipo de homem que não se resigna
a quem chamam de doente numa sociedade séptica.

O visor da enfermaria vigiando o suicídio, porque
nos tomam à força para sermos comuns, até quando
a normopatia carrega estridente sobre a boca para dentro:
calhando falar demais acerca do qual como é:
comprimido para dentro, língua seca para beijos químicos
como gatos lambendo carinhos físicos que doem.

Regista o compasso, escreve nas paredes as orações;
Deus deixou de ouvir - é necessário tornar as preces
em Neons ininterruptos, para quando a noite caia
e o silêncio seja de ordem obrigatória - até para aqueles
que caminham mudos sobre a luz de tochas sagradas.





terça-feira, 25 de abril de 2017

Lilith

Fui o Diabo de alguém a troco de compulsivo
Amor nos braços de outrém. Queixava-se do tempo
que tinha o corpo trocado com o inferno
vestidos de Lolita, uma ninfeta sem amparo -
e um pacto quebrado que impede os sobre-limites
da escrita - e do andamento nefasto da morte:
do consumo exasperado de literatura a troco
de umas poucas moedas de vida. Banalidades
que desaprendo com a virtude de desconhecer
a mão perversa que guia todos os poemas:
Sou-o por mim e de mais ninguém, alegras-me
solidão de memória inventada para todas as ocasiões
tal qual o vestido negro que dispo perante
Anjos Caídos, figuras celestiais à coca
de paranóias inventadas - redenções e outros
desgostos vívidos da fantasia que teima a vigilância
do demónio Maior Amor, Corpo torpe que cai-cai
e brilha a música que preenche o vazio e é
orquestra de espiríto sem maestro.


sábado, 22 de abril de 2017

Borderline

Tenho a mímica afectuosa das tragédias,
e todas as músicas de amor cabem num homem qualquer.
O quarto pintado de branco, mordendo a sanidade,
sincronizando todos os atalhos possíveis
para esta realidade holográfica mutável.
Os engenheiros deste jogo de computador,
unidos para quebrar as leis da física
em nome do meu ininteligivel ser emocional -
rasguei todas as fotos, sou o barulho do papel
que faço desaparecer com as mãos.
Incendeio a boca com as palavras mais belas
para te contar a violência com que quero
fugir de ti: levando o teu abraço no peito.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Lua de Mel

Esqueci as incontáveis mentiras, os pulsos abertos,
o sangue que tive que redobrar no teu corpo;
foram-se, em vão, os momentos dolorosos e os
sacrilégios suicidas em que mergulhámos juntos:
choveram as tuas lágrimas sobre mim e o meu corpo
cheira à maresia irresistível da morte - procuro-a
como se fosse a tua mão escondida na multidão
os dois juntos ouvindo uma música diferente
do que aquela anunciada na televisão:
milhares de sofrimentos a entoar numa voz só
o vazio da nossa lua-de-mel.


domingo, 16 de abril de 2017

30.000 Megatons

Contagem decrescente para o apocalipse
e a minha geração cantando a maravilhosa humanidade,
o fluxo de informação correndo a rede, ultrassónicos
orgasmos, implosivas demonstrações beligerantes
de afetos à distância de um botão.


sábado, 15 de abril de 2017

Perda

Defino a perda, tinha em mim poemas de chocolate
15 anos de idade e alegorias irresistiveis acerca do amor
vibrava as impossibilidades categóricas do ser
e o mundo era a cores pluridimensionais.
Tinha em mim conjuntos ordenados de violência doce
e a fasquia dos sonhos era interminável razão de ser
era-me possível apagar a tristeza através dos lábios,
beijando beijos salgados - chorava pelos dois doentiamente;
a mediunidade ocupava-se zeloza dessa humanidade
terrivelmente díspar do brilho, da estética amarga
que um dia haveria de viver: perder a infância
numa noite só, à força de coisas alquímicas e
tu, para sempre perdido em oníricas incertezas.


Escrita II

Quero escrever para ninguém,
mas só até ao momento de chegar alguém
que leia sapientemente o meu eu.
Ou de disposição suficiente
para aprender de novo o alfabeto,
de errar o primeiro conjunto de letras
como em qualquer mau poema
uma necessidade absoluta para a criação
de pelo menos um verso bom.
Uma vida inteira para encontrar
as palavras certas no coração de alguém.
Só assim parecem sair de mim
os conjuntos desordenados de ideias
a quem tanto quero dedicar
a Ninguém, outro alguém.

A Primeira Desilusão

(Joana, uma louca obsessão da mente)

Fizeram-nos a cabala de uma vez só,
o 6 ligando o 6, ligando o 6 na árvore da vida
e a compreensão fulminante de que a maldade
é perverso "amor para sempre", como o primeiro
e mais nenhum se iguala à primeira desilusão:
a certeza inequivoca de que também
assim estala a guerra e só a divindade
pode salvar B. e restantes anjos caídos;
divindades puras e alienadas, presas
a corredores, incrédulas da facilidade
com que o bem é também arma de arremesso:
e a fragilidade o seu gume.



sexta-feira, 14 de abril de 2017

Causas para o Dilúvio de Noé

(Maximino, a testemunha de Jeová)

Falar de amor antes de perder a cabeça;
mil e uma entidades celestiais conspirando
o tráfego emocional, invisiveis na cidade
caminhando as trevas e uma vontade irresistivel
de corpos luxuriantemente humanos, Nephilims
filhos de cruzamentos entre espécies diferentes,
frutos de amores selvagens, onde céu toca na terra
e gigantes amaldiçoam a temperatura das águas:
é demasiado quente a chuva do grande Engenheiro
perdem oxigénio os seres Nefastos, agora
moribundos flutuando, como corpos-bóia
imitando as asas do pai e a curta vida da mãe.


domingo, 9 de abril de 2017

Vozes

Vou para um lugar invisivel, onde
a minha história é cerceada de paredes
intra-musculares, receitas quimícas,
infaliveis métodos contra práticas
de magia negra e outros oficios densos -
Assim o quis a entidade superior
que dentro de mim ouviu a doença:
vozes multiplicando o pensamento em dois;
coisas que nem Lúcifer ousava
sonhar ouvir. Mil e uma terapias contra
manias e suicidios românticos resultaram
em transtorno agudo, deslocamento mental,
uma vértebra neuronal em desalinho noctívago.




sábado, 8 de abril de 2017

Perdão

Cometemos o erro, guardámos segredos devastadores
fizemos da perdição um lugar habitável:
o diabo pintando tudo de ouro e canções de embalar
para que os seus filhos se tornassem incapazes
de crescer no resguardo da criação ignorante:
essa cegueira transversal a quem Deus
ofereceu a inteligência como bengala de amparos
e o Amor: que designa o sofrimento essencial
onde o perdão é a dádiva exclusiva da salvação.