quarta-feira, 10 de maio de 2017

Bíblia Afectiva

Distorção mental, minha querida amiga,
sublinhei demasiados versos de amor:
ele julga demasiado cedo, mas nenhuma
palavra me passou ao lado. Deixo em branco
a naturalidade da vida, não há necessidade
em fazer perdurar a banalidade circunstancial.
Não me interessam as manchetes, os negritos,
as coisas que nos gritam à primeira-vista.
Somos todos unos das ideias textuais
prometidas tão somente aos escolhidos.
Somos todos parecidos no momento de
de soletrar as preciosidades sacras
que obscurecem todos os grandes livros.
De sermos vulgares até na morte e do seu
"após" ser risco de tinta, perceptível mancha
deixada ao cuidado do próximo leitor.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Mãe Crua

Reordeno as palavras, tenho muito a dizer
com o pouco significado empreendido entre
pesadelos, atitudes francas e díspares da
realidade fragmentada com que alimentas a
tua crueldade emocional. Sou só uma presa
de fáceis argumentos à locura, Sou só
depósito de inferno alheio - Uma curiosidade
com que mudo a música que te dedico: No Woman
No Cry. Se existissem, por via das dúvidas,
lágrimas dentro dos teus olhos: Lê-me,
estou aqui para essa inexistência Azul.
Pertenço-te, como o crucifixo de ouro no
teu pescoço, beleza fria e maçiça que tanto
vale sobre a brancura da tez, que tão pouco
é na sua sublime biologia simbólica - Que
tão pouco sou perante qualquer enredo mortal.
Mordes-me a poesia até cair a palavra Sangue,
esventras os versos, dás-me a novidade formal
tudo no seu devido lugar: como uma criança
finalmente educada à força de um cinto.
Dói-me a descompostura espiritual:
rego essa Existência com o medo, um pouco
do teu dedo, da tua mão Alba mão que faz aparecer
e desaparecer em nome do teu Anjo Caído;
o Nosso Anjo prestes a desencontrar até
a sua própria sombra: Vejo a sua mão na tua
eterno gestante dentro de um ventre de Cristal.



terça-feira, 2 de maio de 2017

Magia Negra

Tenho um feitiço dentro de mim, os sonhos
revoltos, hignagógicos demónios empurrando
a maca de volta à psiquiatria, Jung falando
de Sincronias, avisos de morte e cobras de plástico
brincadeiras travessas em nome da pureza:
diagnósticos errados através do DSM V
a bíblia de Satanás marcando o gado no seu devido
anel dantesco - pertenço à classe de malditos
esquizoafetivos: tudo a fazer de conta,
como meninas saltando à corda num dia de sol:
as boquinhas abertas cantarolando infâncias
e terríveis-poetas escrevendo amores criptográficos
com palavras vendidas ao peso dos astros.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Freakshow

Sou a Mulher emocionalmente decepada,
batem palmas por cada desastre amoroso
por cada lágrima à conta das músicas melancólicas,
cresce-me uma barba salgada que toda a gente
quer mexer, acariciar como se fosse pelo de visón
folículos, raizes de metrópoles em todo o meu rosto
pessoas que são como animais em viveiros
das que fazem envelhecer e tornam as rugas
em estradas de carreiros em constante atraso.
Cegam-me os olhos as luzes de ribaltas
e os risos das crianças apodrecem os dentes
com lânguidas misturas de algodão-doce e o
destino de incerta prisão mental - tenho medo
do lucro deste espectáculo, do Grande Domador
agitando a chibata contra esta feia maneira ser;
do público que entra e se acomoda silencioso
para ver passar a Mulher sem oriente.


sábado, 29 de abril de 2017

Underground


Escondem um homem atrás de uma câmara de videovigilância,
o rosto anónimo multiplica-se, exponência milhares de milhões
não existe fisionomia, apenas gestos e o delito ordinário;
não procuram ladrões nem assassinos - só daqueles que remam
contra a maré - do tipo de homem que não se resigna
a quem chamam de doente numa sociedade séptica.

O visor da enfermaria vigiando o suicídio, porque
nos tomam à força para sermos comuns, até quando
a normopatia carrega estridente sobre a boca para dentro:
calhando falar demais acerca do qual como é:
comprimido para dentro, língua seca para beijos químicos
como gatos lambendo carinhos físicos que doem.

Regista o compasso, escreve nas paredes as orações;
Deus deixou de ouvir - é necessário tornar as preces
em Neons ininterruptos, para quando a noite caia
e o silêncio seja de ordem obrigatória - até para aqueles
que caminham mudos sobre a luz de tochas sagradas.





terça-feira, 25 de abril de 2017

Lilith

Fui o Diabo de alguém a troco de compulsivo
Amor nos braços de outrém. Queixava-se do tempo
que tinha o corpo trocado com o inferno
vestidos de Lolita, uma ninfeta sem amparo -
e um pacto quebrado que impede os sobre-limites
da escrita - e do andamento nefasto da morte:
do consumo exasperado de literatura a troco
de umas poucas moedas de vida. Banalidades
que desaprendo com a virtude de desconhecer
a mão perversa que guia todos os poemas:
Sou-o por mim e de mais ninguém, alegras-me
solidão de memória inventada para todas as ocasiões
tal qual o vestido negro que dispo perante
Anjos Caídos, figuras celestiais à coca
de paranóias inventadas - redenções e outros
desgostos vívidos da fantasia que teima a vigilância
do demónio Maior Amor, Corpo torpe que cai-cai
e brilha a música que preenche o vazio e é
orquestra de espiríto sem maestro.


sábado, 22 de abril de 2017

Borderline

Tenho a mímica afectuosa das tragédias,
e todas as músicas de amor cabem num homem qualquer.
O quarto pintado de branco, mordendo a sanidade,
sincronizando todos os atalhos possíveis
para esta realidade holográfica mutável.
Os engenheiros deste jogo de computador,
unidos para quebrar as leis da física
em nome do meu ininteligivel ser emocional -
rasguei todas as fotos, sou o barulho do papel
que faço desaparecer com as mãos.
Incendeio a boca com as palavras mais belas
para te contar a violência com que quero
fugir de ti: levando o teu abraço no peito.