domingo, 5 de março de 2017

Matryoska


Dedicado ao meu Amigo To Fa

"O céu punha-se em tons de rosa claro e no horizonte era possível resplandecer a cidade inteira como se estivesse dentro de um caleidoscópio. Tentou captar por breves instantes a verdade que há muito se havia formado dentro do seu peito: um ponto perdido na realidade que o enclausurava. Por baixo de si passavam os carros a uma distância mais que suficiente para a morte. Um passo em frente e seria finalmente levado para fora de si mesmo. Libertando-se da estrutura física que o prende. Parecia entender esse princípio básico de toda a delimitação humana e saltaria sem a consciência de que o Universo é como uma Matryoska eterna de onde não é possível escapar. Caiu de súbito, ausente da sua própria viagem e quando aterrou compreendeu finalmente o significado da sua própria prisão. Aí permaneceria durante muitos anos, detentor da sua Reposta, um castigo que haveria de cumprir pela sua vontade de provar o conhecimento. Primeiro sentiu um desespero superior ao do suicídio, pois para si já não existia sequer essa possibilidade. À sua volta limitavam-se a cuidar da sua grade. Estava limpo, quente e alimentado. Quando entendeu que já não havia nada a fazer a não ser estar ali, imóvel, dentro de si mesmo, começou de facto a conhecer o lugar da morte. Aquilo que compreendeu fez temer o momento que seria derradeiro, como o é para qualquer corpo físico. E aquilo que mais o assustou foi a possibilidade de perder tudo aquilo que aprendia enquanto se mantinha. O esquecimento da sua experiência perpetuava-se na sua própria existência. No breve momento em que a memória o sugava com toda a informação que possuía, tentava dar-se a si mesmo um meio de se conservar. Foi então que entendeu aquilo que sempre soubera. Possuía um espirito que num tempo Antigo fora livre, que os corpos e as suas sucessivas mortes perpetuavam a prisão. Entendeu que aquele lugar onde estava seria eterno, mesmo quando tivesse a paz de escapar da realidade da cama onde se prostrava toda a sua imobilidade. Foi então que a sua espera se tornou cada vez mais diminuta e num súbito arremesso foi lançado de volta."




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